09 outubro 2007

Casa Farol




Não tinha qualquer indicação publicitária de néon ou mesmo alguma referência que o identificasse, mas foi dos espaços comerciais existentes no Pombalinho que mais clientela fidelizou ao longo de muitos anos de serviço prestado à população da nossa terra e mesmo de outras nossas vizinhas.

 Esta loja, de cujos fundadores não se sabe bem quem foram, nem a data correspondente da sua abertura ao público, teve como proprietários durante a últimas quatro décadas do século passado, o Francisco Maria Borges e sua esposa Aurelina, seus filhos Rui e Olímpia e seu neto Victor. A loja situada estrategicamente no cruzamento da Rua Barão de Almeirim com a EN 365 de quem vem da Quinta de Fernão Leite, ocupava um espaço de dimensões rectangulares e estava dividida em duas áreas bem distintas no primeiro piso do edifício, sendo o segundo destinado à habitação da família.


A entrada principal era acessível por uma varanda, na qual duas montras a ladear a porta serviam de amostragem aos artigos de utilidade doméstica e outros de carácter mais consumista. Lá dentro poder-se-iam adquirir louças, bijutarias, produtos de doçaria, material didáctico e escolar , roupas etc...




A Olímpia e o seu irmão Rui.






... foi ali também que se iniciou no Pombalinho a corrida ao então recém-chegado jogo do Totobola e ficou nas nossas memórias aquela máquina alaranjada que tanto desespero nos causava, tal o rigor excessivo com que o Rui imprimia às operações de validação do precioso boletim da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

A outra área, de dois meios portões a servir de entrada e em rampa, foi para muitos de nós o acesso ao que de mais maravilhoso estava a acontecer na nossa terra e um pouco por todo o país, a possibilidade de contactarmos pela primeira vez com essa maravilha da técnica a quem mais tarde apelidariam de caixinha mágica. De bancos corridos, a sala enchia-se nessas inesquecíveis tardes de domingo para assistirmos a uma programação nem sempre aliciante mas que satisfazia em grande parte pela curiosidade, tal o entusiasmo que as imagens televisivas despertavam em todos nós.

Este espaço tinha lateralmente umas vitrinas com as mais variadas classes de materiais expostas para o consumo imediato. Um pouco mais acima e em anexo à cozinha da família, situava-se um compartimento apetrechado com ferramentas de desbaste, de onde sobressaía um vastíssimo stock de limas de todo o tipo e tamanho. Ainda mais a norte e no mesmo alinhamento do edifício surgia uma outra sala que veio alterar de certa forma os hábitos e costumes enraizados de há muito nas vidas daqueles que se predispunham de tempos a tempos a visitar os tradicionais e velhos sapateiros da nossa aldeia, uma sapataria onde era possível experimentar os mais variados modelos de acordo com os gostos mais exigentes. E mais ao fundo já no limite da área comercial da família Borges, uma estância de madeiras já com as peças devidamente cortadas e aparelhadas, possibilitava o fornecimento aos construtores civis do material então utilizado nos telhados de casas e armazéns.


 Se agora regressássemos em direcção à entrada deste complexo comercial, surgia-nos à direita um muro de meia altura que dividia as propriedades até chegarmos ao anexo mais requisitado pelos profissionais das mais variadas áreas , era a sala das ferragens e ferramentas. Ali, quem quisesse uma fechadura, um martelo, uma chave francesa ou o mais raro parafuso, nunca saía de mãos vazias, tal a dimensão e a diversidade do stock existente!!!





Mas na memória de muitos, então “garotos” da minha idade, ficará para sempre gravado o deslumbramento com que desembrulhávamos aqueles preciosos rebuçados para vermos ansiosamente se nos tinha saído aquele "cromo da bola" que nos faltava para completar aquelas maravilhosas cadernetas dos craques de futebol !!!!


Era assim, foi assim, a loja que mais recordações deixou nas memórias de muitas gerações de Pombalinhenses que por ali passaram e que hoje têm com toda a certeza uma qualquer história sobre a casa  Farol do Pombalinho, como esta que vos acabo de contar neste espaço que se pretende ser, de histórias sobre a História do Pombalinho!

F - Francisco Maria Borges
A - Aurelina Borges
R - Rui Borges
O - Olimpia
L – Luis


Colaboração Fotográfica – Guilherme Afonso/Teresa Cruz




4 comentários:

Teresa Cruz disse...

Cada um com os seus interesses específicos: tu lembras-te dos cromos e dos rebuçados... eu lembro-me de lá ter comprado o meu primeiro perfume (um frasco de colónia bien-être...)
Parabéns pelo texto.
Beijinho
Teresa

MGomes disse...

Memórias muitos especiais de coisas com imenso significado. Obrigado, Teresa, pela visita e também pelo teu testemunho da Bien-être, esse maravilhoso frasco cilindrico e transparente, que a todos impressionava!!!!!
Beijinho

João disse...

è com grande nostalgia que recordo toda a azáfama diária desta casa que tanta importância teve na nossa terra mas que aos poucos o foi perdendo assim como o seu ultimo proprietário (o Rui Borges ) que a certa altura da vida desligou-se da realidade e enclausurou-se num mundo próprio e surreal.
Recordo com alguma saudade as vezes que o ajudava nas sextas feiras atribuladas no fecho do totobola, chegavam os tranportadores e os boletins não estavam prontos mas ele com a sua maneira dizia "é só mais um bocadinho que está quase pronto!".
Realmente recordar é viver e é destas recordações que fazemos o nosso livro de memórias.
Não acredito que não haja uma única pessoa que tivesse morado ou apenas passado pelo Pombalinho que não conhecesse o Rui Borges ou principalmente a sua Casa, denominada também em tempos por Antiga Cssa Castanhas.
Caro Amigo e conterrâneo felicito-o com grande sinceridade pelas subtis recordações que dá a conhecer a todos quantos querem saber e mais aprender sobre o nosso Pombalinho.
Um grande abraço


João Condeço

MGomes disse...

Caro Amigo João Condeço!
Agradeço-lhe a visita que fez a este espaço da nossa terra assim como às amáveis palavras que me entendeu endereçar. É sempre reconfortante sabermos que o que vamos aqui publicando, muito de história tem para as nossas vidas colectivas. E neste particular sobre a Casa Farol, estou plenamente de acordo consigo, quem do Pombalinho não conheceu a família Borges?
Um grande abraço